
AI DE MIM, SE EU NÃO ANUNCIAR
O EVANGELHO (1Cor 9,16)
S. PAULO E A MISSÃO EVANGELIZADORA
É providencial a coincidência entre o segundo milénio do nascimento de S. Paulo e o Sínodo dos Bispos, dedicado à Palavra de Deus – que se celebrará no próximo mês de Outubro, no Vaticano – uma feliz coincidência que nos impele, a todos nós, presbíteros e leigos, a motivar novamente a urgência da missão com o mesmo espírito que assinalou a acção evangelizadora do apóstolo dos gentios.
No ensaio Ide e anunciai. Fundamentos e desafios da missão já tivemos a oportunidade de nos deter na expressão ousada de Paulo «ai de mim se eu não anunciar o Evangelho», retirada da primeira carta aos coríntios, dizendo: «As palavras de Paulo (…) devem constituir um compromisso irrenunciável para a Igreja apostólica. Esta tem a tarefa indeclinável de fazer chegar aos homens de cada tempo a palavra divino-humana do Salvador com toda a sua frescura e eficácia salvífica. A actividade missionária não só não perdeu nada da sua actualidade, mas revestiu-se antes de particular urgência nos nossos dias» (pag.238)
Pretendemos agora deter-nos de forma especial sobre a urgência que Paulo dedica à missão: de onde brota a sua acção missionária na Igreja e em favor dela? Qual é o conteúdo insubstituível da sua evangelização? Porque é que anunciar o evangelho não é para ele um motivo de glória, nem uma livre opção, mas antes um dever? E, finalmente, qual é o objectivo da instância missionária da Igreja no nosso tempo?
1 – A identidade missionária de Paulo
Não raro, pensamos em Paulo de Tarso como se tivesse sido um filósofo, colocado ao mesmo nível dos maiores pensadores da humanidade, ou um dos teólogos mais originais e profundos da história da Igreja. De facto ele é também um dos maiores pensadores, um dos conhecedores mais agudos da mente humana, um dos místicos mais arrojados da Igreja, que chegou mesmo a ser «arrebatado ao céu, tendo ai ouvido palavras inexprimíveis que a ninguém é lícito pronunciar» (2Cor 12,4). Eis como S. João Crisóstomo no seu livro De Sacerdotio (4,9) exalta o génio a santidade de Paulo: «Se demandasse a eloquência de Isócratres, a grandeza de Demóstenes, a gravidade de Tucídides e a sublimidade de Platão, teria que evocar o testemunho de Paulo.»
Paulo, no entanto, define-se a si mesmo antes de mais como sendo um missionário, um apóstolo, «escolhido desde o seio para anunciar a Cristo entre os gentios» (Gl 1,15 – 16) ou seja, entre aqueles que não pertenciam ao povo eleito. «Apóstolo por vocação» (Rm 1,1), nunca se concebeu sem esta característica que o levou a cruzar, ao longe e ao largo, as principais províncias do Império romano, para «se fazer fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos, fazendo-se tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo» (1Cor 9,22). É por isso que logo no início das suas cartas começa por se apresentar como «apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus» (1 Cor 1,1), «eleito de antemão para anunciar o Evangelho de Deus» (Rm 1,1).
O seu novo bilhete de identidade, validado após o encontro com o Ressuscitado no caminho de Damasco, é antes de mais o de um missionário que, na força do Espírito, leva o Evangelho até aos confins da terra (Act 1,8). A sua identidade de Apóstolo está
de tal modo arraigada nele que não é possível distingui-la da sua dimensão humana, com todo o conjunto de qualidades e defeitos que esta implica. In Eclesia (Cardeal Saraiva Martins)